Por Felipe de Souza
“Devemos expressar a raiva? Ou devemos escondê-la? Reprimi-la? Haverá algum problema se escondermos no longo prazo?”
Sobre emoções e sensações
Para começarmos, é muito importante
saber o que é a raiva. O que é a raiva para você? Ou melhor, como você
sabe que está com raiva…quando está com raiva?
Para por alguns instantes e pense.
Quando pergunto como é a raiva para
você, deixo implícito o pressuposto de que a raiva é diferente para cada
pessoa. Para mim, sei que estou com raiva quando noto o franzir da
minha sobrancelha, quando contrario vários músculos no rosto e na testa,
fecho os punhos como quem fosse dar um murro, sinto meu coração bater
mais rápido e a respiração fica mais rápida e superficial.
Provavelmente, para você é um pouco diferente. De toda forma, você e eu nomeamos isso tudo como raiva.
Agora, vamos imaginar como se fossemos
um cientista que estivesse observando este conjunto de fenômenos: todas
estas sensações separadas que, juntas, chamamos de raiva.
Separadamente, nenhuma destas sensações
corporais indica necessariamente um estado de raiva. Posso contrair os
músculos da testa porque estou com dúvida, posso fechar os punhos em um
exercício ou como sinal de vitória, como quem comemora algo.
Ao observar cada sensação por si só,
como em um microscópio, vemos que todas estas sensações são
transitórias, temporárias, impermanentes. Mas, se quisermos, podemos
manter por mais tempo estas sensações. E aí é que surge a questão da
causa da raiva.
As causas da raiva
Desde o começo da psicologia, que todas
as abordagens, sem exceção, possuem um axioma: todos os fenômenos
psicológicos tem uma causa, ou seja, podem ser explicados.
A raiva possui uma causa. A raiva não surge do nada.
Novamente, observamos que a causa de
termos raiva um dia é diferente da causa de um outro dia e, igualmente, a
causa de eu sentir raiva pode ser diferente da sua causa.
Em geral, creio que não erramos ao dizer
que a causa principal da raiva é acontecer algo que não queremos. Temos
um desejo, uma vontade, e acontece o que não tínhamos querido ou
planejado. Nem sempre isso é óbvio.
Você sai de carro e logo percebe que há
um trânsito quilométrico. Você sente raiva. Entre a percepção do
trânsito e raiva talvez não tenha passado nem um segundo. E, deste modo,
não há a consciência de que a raiva surge do desejo de que não houvesse
trânsito.
Aqui também é bom parar por uns
instantes e pensar: quando você sentiu ou sente raiva… o que estava
acontecendo? O que havia que você não queria que houvesse?
O que você pode controlar?
No filme Click, Adam Sandler ganha um
controle remoto que lhe permite alterar a realidade. É uma comédia com
cenas muito engraçadas e que nos ajuda aqui a, metaforicamente, entender
a ideia de controle.
Um controle remoto nos permite realizar
algumas modificações em uma televisão. Mudar de canal, de volume, de
cor. Se estamos assistindo com alguém, a pessoa que tem o controle, vai
controlar o que será visto (esperamos que sem brigas).
Na vida, ao contrário, não temos na
maior parte dos momentos um controle grande dos eventos. Não podemos
controlar a cor do céu, a temperatura, se chove ou faz sol. De igual
modo, muitos eventos sociais também não estão sob o nosso controle, como
o trânsito, a macroeconomia, o que um político que votamos faz, etc.
A questão é que queremos controlar. E,
consequentemente, uma boa parte da raiva é sem sentido. Afinal, podemos
ter raiva o quanto quisermos por estar 35° mas isso não vai mudar a
temperatura. Podemos ter raiva porque alguém falou uma besteira na TV ou
ao nosso lado e isso também não está sob o nosso controle.
Na verdade, até as sensações corporais,
muitas vezes, não estão sob o nosso controle como o ritmo do batimento
cardíaco ou o rubor.
Olhando assim talvez pareça desolador.
Na verdade, penso que é reconfortante analisar as coisas por esse ângulo
porque passamos a ter clareza sob o que está sob o nosso controle e que
é o mais importante: o nosso comportamento.
Emoções e comportamento
Um exemplo, digamos que alguém me
ofendeu. A partir da ofensa, talvez eu sinta sensações corporais
desagradáveis. Dependendo do momento, triste ou raiva. Se eu observar em
detalhes as sensações, notarei modificações aqui e ali em meu corpo.
Sei que estas sensações são passageiras,
mas tenho que lembrar que entre o estímulo e a resposta, como nos
alerta Victor Frankl, há um espaço de liberdade. Respondo a ofensa com
ofensa? Ou respondo com silêncio? Ou brinco e quebro o clima tenso?
Pela psicologia comportamental do Skinner, aprendemos que as emoções não são a causa do comportamento.
Saber desta distinção nos ajuda a ter
mais liberdade para agir de uma forma que seja benéfica para nós e para
os outros. Pois se alguém me ofende eu o agrido, terei mais problemas.
A expressão da raiva
No calor do momento, tudo isso pode
parecer teórico ou utópico demais. Recalcar ou reprimir a raiva, fingir
que ela não existe, não é uma boa estratégia até porque a tendência é,
paradoxalmente, fazer com que ela permaneça.
Explico: quando queremos não pensar em
algo, acabamos tendo que pensar para não pensar. E isso leva a pensar
mais. Uma das estratégias que temos é permitir sentir as emoções,
observar as sensações e as deixar passar junto dos pensamentos que
alimentam a raiva. Se ficamos nos lembrando da ofensa, permaneceremos
ofendidos e, provavelmente, triste ou irritados.
Em outras palavras, negar que há um
sentimento, uma emoção, uma sensação não adianta. Nesse sentido, é
preciso ser sincero consigo e observar o que está acontecendo, porém,
sempre sabendo que podemos agir sem ter por base uma emoção negativa.
Ao tomar consciência de uma emoção que
está presente agora, temos alternativas para a sua expressão que são
mais adequadas, desde ouvir uma música na qual gritamos ou dançar,
pular, dar socos em um travesseiro – porque, no final das contas, a
raiva é apenas uma sensação corporal. Torna-se negativa se nos traz
consequências negativas. A diferença entre dar um murro em alguém e
tocar guitarra.
Texto Original: Psicologiamsn
