Por Helena Vidal-Folch
Esta semana descobri no calendário que existe um dia da sogra.
É o 28 de abril no Brasil (também há o dia do sogro, é em 10 de março).
Fiquei surpresa, reconheço. É que, embora muitas dessas mulheres
realizem um trabalho social e familiar valiosíssimo, costumo escutar na
consulta mais motivos de queixa que de comemoração. Portanto, se você é
dos que têm mais motivos para se queixar do que para festejar nessa
data, provavelmente se interesse pelo que vem a seguir.
Mesmo se o problema não for a sua sogra, e você simplesmente quiser melhorar uma relação através de uma boa conversa, preste atenção também.
A primeira coisa a levar em conta para abordar o assunto é determinar
que tipo de conversa deve ser bem preparada. Sabe quando você vai falar
em público e anota suas ideias para organizá-las melhor? Faça o mesmo
com essa conversa pendente (ou conveniente) e assim terá maior clareza
sobre o que deseja transmitir. Mas é verdade que, se pegarmos uma lupa
para ver de perto como costumamos falar, descobriremos muitas das causas
que geram mal-estar em nós mesmos e em nosso entorno.
Comecemos com um exemplo. Imagine que dona Lola é a mãe de seu marido
e que costuma dar balas a seu filho ao buscá-lo na escola. Você lhe
agradece pelo apoio na criação do garoto, mas tem medo de que esse
hábito acabe custando caro, ainda mais com seu histórico de diabetes.
Essa é apenas a ponta do iceberg. A maioria de nós, ante essa situação
repetitiva, falaria assim ao cônjuge: “Não aguento mais. Parece que sua
mãe faz isso de propósito. Dá guloseimas ao Pedrinho, embora eu tenha
dito mil vezes que isso está proibido.” Mas este seria um mau começo se
realmente quisermos que a sogra nos entenda. A frase soa como uma
reclamação. Se desejamos bons resultados, é preciso começar
diferenciando entre reclamação e pedido.
Quando nos queixamos, costumamos fazê-lo diante de terceiros
procurando apoio ou simpatia, mas isso na verdade provoca mais rancor e
não costuma resolver o conflito. Já o pedido é diferente porque, se for
bem formulado, pode poupar muitos desgostos. Mas geralmente é mais
complexo porque expõe mais nossas carências e vulnerabilidades. Voltemos
ao exemplo anterior e preparemos uma conversa produtiva seguindo quatro
passos elaborados pelo psicólogo americano Marshall B. Rosenberg em seu
livro Comunicação Não Violenta: Técnicas para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais (Editora Ágora).
Primeiro passo: observação.
Rosenberg nos incentiva a colocar sobre a mesa aquilo que vemos. Mas tem
um truque: trata-se de uma observação sem avaliação. Para isso é
preciso tirar o hábito de juiz profissional e contar objetivamente o que
foi visto. No caso que mencionamos antes, seria preciso dizer à sogra
uma frase como esta: “Dona Lola, a senhora deu balas ao Pedrinho todos
os dias desta semana”. Mas o que acontece com nossa opinião? Ela não
serve para nada nesse ponto da conversa. Se soltamos algo no estilo
“Parece que sua mãe faz isso de propósito”, mostramos unicamente a nossa
perspectiva da realidade.
O fato de manifestar o que acreditamos nesse fase não vai nos
aproximar da mãe política. Ao contrário. Além disso, é importante
entender por juízo qualquer generalização. Não vale um “sempre” dá balas
ou um “nunca” faz o que eu peço. São palavras que vão boicotar desde o
início nossa tentativa de aproximação. Portanto, sejamos concisas.
Segundo passo: sentimentos. Como
você se sente em relação àquilo que observa? Você disse abertamente que
está preocupada com o que os últimos exames de seu filho revelam? Não. A
sogra provavelmente imagina, mas se queremos que ela nos leve a sério,
precisamos ser claras. Este passo e o seguinte são provavelmente os mais
difíceis porque implicam falar de si mesmo e não da “malvada” Lola. O
que habitualmente se faz é omitir essa fase porque ou não sabemos
identificar o que sentimos, ou não queremos que saibam. Um erro crasso.
Este é o degrau que mais nos aproximará do objetivo. Se você mostrar o
que sente, permitirá que o outro entenda mais facilmente a recusa de dar
açúcar à criança e ainda evitará que isso seja tomado como algo
pessoal.
O problema é que nem todos nós sabemos nos expressar. Parece fácil,
mas, sem prática, não é. “Passei 21 anos em instituições educacionais
norte-americanas e, em todos esses anos, não me lembro de ninguém me
perguntar como eu me sentia. Os sentimentos simplesmente não eram
considerados importantes. O que se valorizava nesses lugares era a
maneira correta de pensar. Somos educados para que nos orientemos em
relação aos outros, mais do que para estar em contato com nós mesmos”,
explica Rosenberg.
Felizmente, parece que os tempos estão mudando e a educação emocional
começa a conquistar um espaço definitivo na sala de aula, segundo o
manifesto de projetos educativos como Emocionario, Di lo que sientes
(“Emocionário, Diga o que sente”) idealizado pelos espanhóis Cristina
Núñez Pereira e Rafael Romero. Voltando a nosso exemplo, e levando em
consideração este segundo ponto, é possível dizer: “Dona Lola, a senhora
deu balas ao Pedrinho todos os dias desta semana. Desde a última
consulta médica, e diante das advertências do pediatra, tenho muito medo
que a saúde dele piore”.
Terceiro passo: necessidades. As emoções e os
sentimentos negativos surgem a partir de necessidades não satisfeitas. E
tampouco estamos bem preparados para isso. Como destaca Rosenberg,
fomos educados para pensar naquilo que nos falta. Como então investigar
nesse universo desconhecido? Um bom ponto de partida é formular uma
frase do tipo: “Eu me sinto... porque eu...”. Dessa forma nos
responsabilizamos por nossos sentimentos. No caso da sogra, seria
necessário acrescentar: “Quando vejo que a senhora dá balas ao Pedrinho,
me assusto porque penso que pode acontecer alguma coisa com ele, e
preciso estar segura de que estamos fazendo todo o possível pela boa
saúde dele”.
Quarto passo: pedir. Chegamos ao final. Analisamos o
que ocorre quando se coloca o foco em você e a lupa em como dizer algo a
dona Lola. Falta expressar o pedido. Procure encontrar um momento
adequado para as duas. Evite uma conversa casual de corredor e busque um
lugar propício para gerar o contexto que mais ajude. Formule a sugestão
de uma maneira positiva, com uma linguagem concreta que não dê margem a
interpretações. Inclua o que descobrimos nos passos anteriores. Assim,
evitará que o pedido seja interpretado como uma exigência.
“Dona Lola, a senhora deu balas ao Pedrinho todos os dias desta
semana. Desde a última consulta médica, e diante das advertências do
pediatra, tenho muito medo que a saúde dele piore. Estou assustada
porque penso que pode acontecer alguma coisa com ele, e preciso estar
segura de que estamos fazendo todo o possível pela boa saúde dele. Por
isso tudo, eu peço que não compre mais balas para ele”.
Provavelmente essa nova forma de falar manifeste um “eu” desconhecido
em nossa interlocutora. Mostrar nossos medos fará com que ela se
conecte de maneira autêntica conosco. E certamente agora ela prestará
mais atenção. Esse pode ser o início de uma relação de empatia. Parece
um exercício complicado? Convido-a a experimentar e treinar. Chegará um
dia em que os automatismos serão produtivos.
Texto Original: Elpais