Por André J. Gomes
Não, eu não concordo com essa grossura
toda, não. Esse negócio de achar que truculência e competência são a
mesma coisa, esse estrabismo de enxergar eficiência onde só há
intolerância, essa história de aceitar e elogiar a grosseria em nome do
resultado. Para mim, não dá. Eu não aceito.
Vão me desculpar os autointitulados
“sinceros”, mas cuspir nossas verdades pessoais na cara dos outros assim
sem mais, sem pedir licença, sem jeito e sem pudor não é sinceridade. É
falta de educação mesmo. Pretexto para humilhar, subjugar e acabrunhar
alguém que, em nossa lógica perversa de autoproteção, precisa ficar em
seu lugar.
Quase sempre, na esteira de um
dissimulado “desculpe a sinceridade” vem uma enxurrada de afrontas,
preconceitos e ofensas proferidos com falso desprendimento. A cada
crítica forçada e opinião venenosa, o sujeito muito orgulhoso de sua
“sinceridade” pisa com selvageria disfarçada as cabeças de suas vítimas
enquanto festeja sua “personalidade forte”. E eu aqui me pergunto se
isso não passa de fraqueza de caráter, insegurança profunda e essas
coisas que ninguém assume.
Tem até quem ofenda e magoe alguém com a
desculpa de tentar ajudá-lo. Balela. Mentira. Não está ajudando.
Truculência não é boa intenção. É mal gosto mesmo. Digamos a verdade com
firmeza mas com doçura. Por que não?
Sim, senhor! É claro que se pode ser
sincero sem ser agressivo. Todos podemos declarar nossa versão da
verdade sem vociferar e agredir. Mas tem gente por aí acusando pessoas
de bom senso e almas cuidadosas de hipocrisia, frescura, falsidade e
outros acintes pelo simples fato de elas ainda usarem o tato e a cautela
para lidar com os outros.
É estranho, mas a incrível inversão de
valores que nos assola transformou em “fingido” o sujeito de bons modos.
Reduziu à condição de “sonso” o cidadão que ousa dizer o que pensa com
firmeza, sim, mas com toda a delicadeza que lhe cabe. Na ótica míope dos
hostis, o ser gentil é um molenga, um banana e um fingido. E a
gentileza, veja só, é uma farsa.
Uma coisa é a nossa dificuldade de ouvir
“a verdade” alheia, nosso embaraço em aceitar críticas e receber
opiniões diversas. Isso se trata e se corrige. Outra coisa é o nosso
direito de ouvir o outro com o mínimo de jeito e delicadeza. Isso não se
negocia.
Sigamos assim, exaltando os grosseirões
autointitulados “sinceros” e julgando como hipócritas, frouxos, covardes
de personalidade fraca os bem educados, e estaremos cada vez mais
distantes uns dos outros, rolando ladeira abaixo no caminho para o nada.
Nessas horas eu sinto saudade de minha
bisavó, Benedita Rosa, que me visita com a brisa da tarde, na Hora da
Ave Maria, Hora do Ângelus, “Hora da Rosa”. Pensar nela me faz bem.
Olhando em nossos olhos durante uma bronca, tinha a firmeza e a direção
das locomotivas. Mas nunca perdeu a doçura dos anjos e dos sonhos de
padaria. Valei-me, Vovó. Valei-nos Deus! Com toda a sinceridade, está
faltando sua gentileza aqui embaixo.