Por
Vi olhares perdidos e olhos profundos,
marcados pelo sofrimento, pelo cansaço e por noites mal dormidas,
semblantes escuros curtidos pelo sol, rostos envelhecidos precocemente,
bocas sem dentes, mãos enrugadas e pele seca.
Vi olhos famintos nas filas de
supermercado, comprando pouco, desejando mais. Vi gente enchendo o
carrinho de compras, sonhando ser rica por um instante, “comprando” de
tudo que é caro e que se crê que seja bom, porém, sem dinheiro que
permitisse tamanha aquisição, mas sonhando pelos corredores até chegar
ao caixa, puxando da montanha de consumo somente um quilo de açúcar e
uma margarina da marca mais barata, pagando cabisbaixo com dinheiro
contado e retirando-se envergonhado pela humilhação, sóbrio com a
realidade lá de fora e também lá de dentro de sua casa.
Vi pessoas penduradas em portas de
ônibus, em dia de chuva, sendo transportadas de forma mais perigosa que
gado, esses mais valiosos para os proprietários do que gente de
periferia para a sociedade.
Vi uma obra de metrô enorme, cara, feia e
inacabada, resultado de corrupção e falta de escrúpulo de governantes e
empresas, que se enriquecem cada dia mais às custas de um povo sofrido.
Vi pés saindo de uma caixa de papelão,
que desmontada e rasgada servia de cobertor e abrigo para dormir, ou
para fingir que dorme para distrair a fome, cobrindo até o rosto,
deixando livres somente aqueles pés negros e sujos, marcados por muitas
andanças e com unhas podres, corroídas por algum fungo.
Vi rostos medrosos diante da violência,
rostos voltados para o chão, enquanto bandidos fardados pregavam
hipocritamente que eram bandidos aqueles cidadãos, pobres, negros e
mulatos, que por serem muitos e não serem nada, não tinham reconhecido
seu direito de ser gente.
Vi polícia batendo, gente apanhando,
outros rindo e regozijando-se pela miséria de outros coitados,
esquecendo-se que eram eles mesmos coitados também, rindo talvez por
desconcerto, desconforto ou gratidão e medo, por saberem que a próxima
talvez seria sua vez, de tomar tapas, de ser xingado ou mesmo levar
bala, mesmo sem nada ter feito, talvez por somente serem pobres (e
negros?).
Vi pessoas vivendo em casas sem reboco,
por falta de dinheiro, mas gastando dinheiro para comprar cerveja, vinte
reais que faltam para um saco de cimento, mas cinqüenta que bastam para
uma grade de cerveja, contradições alcoólatras, coisas sem nexo, porém
reais.
Vi celulares passeando pelas ruas,
levando pessoas puxadas pelas orelhas, as dominando, as escravizando,
tornando-as dependentes, apêndices de um aparelho vivo, claro, mas
muitas vezes morto por falta de crédito.
Vi homens rebolando, bêbados, drogados,
perdidos, muitas vezes armados, animais, gritando, azucrinando outros,
música alta, pagode solto, palavrões e canções, texto “infantil”,
insensato, sexista, imbecil.
Vi cães maltratados por pessoas
egoístas, que os tratavam como gente, ou melhor que gente, com tudo em
excesso, carinho, comida e até roupa, paparicos e beijinhos, os
carregando no colo e se autojulgando justos protetores de animais, mas
enxotando meninos que pediam comida. Vi outros cães maltratados pela
pobreza e por pobres, que gostam de bichos, mas não os respeitam, já que
eles mesmos nunca foram respeitados. Vi outros cães soltos nas ruas,
calazar e sarnas, pulgas e carrapatos, vivendo de lixo e pedradas,
sentindo na pele e no pêlo o que é viver no meio dos homens sem serem
desejados.
Vi olhos jovens cheios de esperança e
utopia, desejos e otimismo, mas se perdendo aos poucos no mundo insano e
alcoolizado dos adultos. Outros olhos jovens avermelhados, vazios,
devassados, acusando a droga no sangue e na mente. Jovens que vão à
escola e pouco ou nada aprendem, ou que não vão à escola e aprendem da
vida e da rua. Vi o futuro do país sendo desperdiçado, comido pelas
drogas, violentação social daqueles que terão que consertar uma
realidade sem conserto que herdarão de nós.
Vi crentes descrentes, gritando para
Deus como se ele fosse surdo e demonizando tudo à sua volta, falando de
amor por alto-falantes, mas sem amar, exigindo tolerância sem tolerar,
chamando o candomblé de coisa do diabo, discriminando homossexuais
abertamente, construindo templos assustadores, hipocrisia cristã baseada
em evangelho torcido em nome do Pai.
Vi meninas moças sendo assediadas por
homens adultos, pais, avôs, tios e vizinhos, turistas e até professores,
abusando de forma extremamente animal daquilo que deveria ser o mais
sagrado: da inocência infantil.
Vi gente “fina” tapando o sol com a
peneira, vivendo na ilusão ilusória de quem se julga ser mais do que é,
gente que se acha importante, seres superiores, que não assumem seu
papel e sua obrigação naquele cenário tão injusto, simplificando o
complexo e culpando o pobre pela pobreza que lhe é imposta.
Vi gente se enganando, entregue ao
consumo, “curtindo” a vida, festejando todos os dias uma festa eterna,
sem assumir sua responsabilidade adulta pela realidade à sua volta.
Vi miséria, injustiça, ignorância e
indiferença, uma sociedade imatura que pouco faz e muito promete. Vi
gente sofrida aplaudindo políticos ladrões como se fossem deuses. Vi
gente se humilhando e chamando “rico” de “doutor”, doutorecos cheios de
doutorices, mas que nada sabem e pouco têm a oferecer .
Vi tudo isso. Vi a Bahia. E fiquei triste.
Texto Original: Caminhos