Uma das primeiras conseqüências de beijar os filhos na boca, já nos
primeiros dias de vida, é a transmissão de bactérias as quais os bebês
ainda não possuem defesas. Segundo o presidente da Associação
Odonto-criança, Daniel Korytnicki, que concorda com a citação do
infectologista Milton Lapchik, além da cárie, “o estalinho pode
transmitir algumas doenças, como herpes simples, micoses e outras
infecções causadas por vírus”, as quais muitas vezes ficam
imperceptíveis na pele, mas que geram indisposição física, sendo
necessária a intervenção medicamentosa.
A pedagoga Jane R. Barreto, ressalta que a criança imita os adultos,
tanto os familiares, como os vistos em programas televisivos e filmes.
Porém a representação desses papéis adultos, não significa que a criança
esteja pronta para a compreensão global do que certas atitudes que
imitam, representam, pois permanecem na inocência característica da
infância. Nesta situação, dramatizar o que viu, cantar e dançar músicas
com cunho erótico para o adulto não possui a mesma conotação para as
crianças, mas as expõe. A criança, por se estruturar através da fantasia
mediada pela realidade, vive no faz de conta a concepção de um amor
dentro do conhecimento que possui do amor de seus pais: príncipes e
princesas que desejaram estar juntos e serão felizes para sempre. Mesmo
famílias que possuem desentendimentos constantes em frente a criança,
pelo infante não conhecer outra realidade, acaba por considerar que esta
forma de relacionamento é a normal. A autora ainda ressalta que
“Adultos não devem beijar crianças na boca, se alimentar na mesma
colher, assoprar a comida, ou ainda recolher a chupeta, quando a mesma
cair no chão, levando-a à boca, para “tirar as bactérias”, e depois
colocar na boca da criança, evitando assim a transmissão de Hpilori,
carie, herpes, sapinhos, entre outros… eles ainda estão criando
imunidade, não tem a defesa orgânica que os adultos têm. Além da questão
saúde, devem permanecer atento ao comportamento, pois se os infantes
julgarem que esse costume familiar é natural, repetirão com todos
adultos que tiverem contato. Neste sentido o diálogo com seus filhos se
torna fundamental, esclarecendo que essa atitude só deverá ocorrer no
seio familiar, pois, com a ingenuidade natural da criança, pode
acontecer dela entender que, uma vez que seus pais a beijam na boca,
pode repetir o gesto com outros de seu vínculo.”.
Giselle Castro Fernandes também ressalta que criança não beija na
boca e não namora. Criança tem amiguinhos mais chegados ou não. Nas
escolas, presenciam-se alguns coleguinhas andar de mãos dadas dizendo-se
namoradinhos, ou como relatou uma mãe de uma criança de 3 anos: “Minha
filha está preocupada com quem vai se casar, pois um amiguinho casará
com uma de suas amigas, o outro com outra e assim consecutivamente.”.
Situações como essas, além de gerar ciúmes, provocam também uma
preocupação inadequada para a idade, privam a criança da infância, sem
nenhuma razão! O trabalho dentro do espaço escolar de esclarecer a
educadores e pais sobre este aspecto é fundamental.
Para os pais, o namoro infantil pode ser interpretado como uma
brincadeira, mas é preciso que se alerte quanto às consequências disso.
Uma criança de dois ou três aninhos, acostumada a dar o “selinho” em
seus pais, a tomar banho junto com o sexo oposto adulto ou a dormir na
cama do casal, dependendo de como o adulto brinca ou sente essa
situação, poderá desenvolver a erotização precoce de algumas áreas de
seu corpo e este fator pode novamente privá-la da inocência da infância.
Assim, casos esses comportamentos sejam rotinas dentro da família,
precisam ser conversados e orientados dentro do entendimento de cada
fase, lembrando sempre que a criança possui uma compreensão relacionada
ao corpo bem diferente do adulto. Valdeci Rodrigues questiona: “Numa
época em que a pedofilia precisa ter um amplo combate, como ficam a
cabeça desses garotos e garotas que escutam na própria escola que para
fugir do baixo astral é melhor “beijar na boca”?”. Essa reflexão é
primordial para a educação infantil para pais e educadores.
Giselle Castro Fernandes continua sua reflexão alertando que “Na
família existe o papel do pai e da mãe – que, juntos, formam um casal
que dorme junto, que beija na boca! O papel dos filhos é outro. São
crianças, e criança não beija na boca, não dorme na cama dos pais, etc.
Trata-se de demarcar esses limites de maneira bem clara. Do contrário,
fica difícil definir o papel do adulto e da criança. Para ela, criança,
dar o “selinho” é o mesmo que namorar.”. Enfatiza ainda que “Filhinho
(a) não é namorado e, portanto, não beija igual. Beija no rosto,
abraça, acaricia, mas nada que se confunda com o carinho ou com o amor
do adulto, do casal. Há uma preocupação muito grande (e justa) dos pais,
de se atualizarem, de não se distanciarem de seus filhos, mas isso pode
e deve ser feito, sem que se abra mão de seu papel, o papel de pai e de
mãe, aqueles que representam o porto seguro aos filhos, aqueles que são
“adultos”, que orientam, seguram a barra e que deixam muito bem
definida a posição de criança e de adulto na família. Pode se ter a
certeza de que os filhos, no futuro, agradecerão muito a seus pais que
não abriram mão do papel com a função paterna – no sentido literal de
força, de limite e da função materna – de cuidado, proteção. Amor entre
adultos é diferente do amor pelas crianças, pelos filhos. Portanto, o
beijo é também diferente e nem por isso menos carinhoso!”. Se
incentivarmos a infância de nossos pequenos, eles irão amadurecer no
tempo certo, não precisamos acelerar nada. Dentro desta linha de
pensamento, a conseqüência de beijar o filho na boca propicia uma
confusão de papéis, sendo esta desnecessária ao aprendizado infantil.
Como a concepção do adulto o beijar na boca esta relacionado a
sexualidade, vale ressaltar as colocações de Lulie Macedo que cita que “Desde
que o mundo é mundo, as crianças não brincam de médico à toa: a
aventura do descobrimento começa já nos primeiros meses, quando o bebê
experimenta o prazer de explorar o próprio corpo, e se acentua nos anos
seguintes, quando sua atenção se volta para o corpo dos pais e de outras
crianças.”. Esse descobrimento corporal é natural do ser humano e
deve ser compreendido dentro desta lógica. Assim, tocar no próprio corpo
faz parte da tarefa de entender o mundo e a autora acima complementa
que “o prazer em manipular os órgãos sexuais é uma das primeiras
descobertas.”. “Ela não sabe o que é certo ou errado, quais são os
códigos sociais, a diferença entre o público e o privado. Cabe aos pais e
educadores ensinar que ali não é lugar para isso.”, afirma Maria
Cecília. Desta forma a criança entenderá o sentido de privacidade e
respeito ao próprio corpo, bem como ao corpo das demais pessoas.
Essa autora também cita que “O problema não está na exploração
sexual do próprio corpo ou nas brincadeiras entre crianças da mesma
idade. Prejudicial é a repressão do adulto a essas atitudes, quando ele
grita, proíbe, bate ou põe de castigo. Fazendo isso ele transmite a
noção de que aquilo é errado, quando na verdade essas atitudes são tão
naturais quanto aprender a andar, falar, brincar”, afirma Maria Cecília Pereira da Silva, psicanalista e membro da ONG Grupo de Trabalho e Pesquisa em Orientação Sexual. – “Sexualidade
não é sinônimo de coito e não se limita à presença ou não do orgasmo.
Ela influencia pensamentos, sentimentos, ações e a saúde física e
mental. Se saúde é um direito humano fundamental, a saúde sexual também
deveria ser considerada um direito humano básico. O “exibicionismo”
infantil faz parte da fase de exploração dos corpos. Como um brinquedo
novo, a criança quer mostrar aos outros, o que já descobriu. Quanto à
menina que adora levantar a roupa e mostrar o bumbum, por exemplo, pode
estar imitando algo que viu na TV. Em qualquer situação, cabe aos
adultos começar a ensinar a noção de intimidade.”.
O trabalho educacional desenvolvido para a Educação Infantil neste
assunto é permeado de observação e reflexão. Ao demonstrar e questionar a
criança a respeito da conseqüência de constantemente tocar nos olhos,
ouvidos, colocar a mão na boca, no nariz, em suma, questioná-la sobre a
conseqüência de explorar o corpo e relacionar essa conseqüência ao toque
dos órgãos genitais, a faz compreender que tocar demasiadamente ou sem
as mãos estarem limpar, pode gerar ardência dos locais tocados.
Ressaltar o uso de peças íntimas (calcinhas e cuecas) para proteger o
“fazedor de xixi” e o “fazedor de coco”, é primordial para esse
aprendizado, bem como também explicar que o momento de banho, é um
momento privado. Desta forma, a criança compreenderá a restrição quanto a
onde se tocar e não quanto a se tocar.
Dois outros aspectos importantes é saber: até quando os adultos podem
ficar nus em frente aos filhos, sendo recomendado que se esta situação é
vista com naturalidade, só por volta dos 7 ou 8 anos, as crianças
solicitam a própria privacidade e esta deve ser respeitada. Outro
aspecto é relacionado ao fato do imprevisto de a criança visualizar o
ato sexual, sendo importante conversar a respeito, mesmo que ela não
pergunte ou não queria voltar a esse assunto. Lembre-se que se esta
situação ocorreu, o descuido foi dos pais e estes devem-se se preparar
para que esta conversa não gere culpa no infante, nem jamais culpá-lo.
Se ocorrer dificuldade frente a esse assunto, é imprescindível buscar
auxílio profissional, prevenindo fantasias desconfortáveis a esse
respeito primordial na formação do ser humano.
Assim, evidencia-se algumas conseqüências de beijar os filhos(as) na
boca, ressaltando que se o filho for respeitado em seu desenvolvimento,
terá uma infância saudável e feliz.
Texto Original: RRclinicapsi